Quando crescer quero ser um balcã. Falar uma língua esdrúxula e ser brega. Bemmm cafona. Os Bálcãs são assim, esdrúxulos, bregas, estampados em cores fortes que não combinam e com arranjos e melodias manjadas. São meio sujinhos, tem vozerão, gritam, falam alto. São cafonas. Viva a cafonice, viva a península balcânica.
Ao lado uma caixa vermelha cheia de histórias. Sábado, casa da mãe. Memórias de uma vida que não parece mais a minha. Uma caixa azul, uma caixa vermelha e uma caixa amarela. Ah,uma caixa preta pequena. Preta mesmo e não laranja como a dos aviões. Djembés embalaram a exumação. Lembranças de dividir a cama esporadicamente e diariamente. A cama, o carpete e o sofá. Histórias se confundem com estórias. Ratni Zlocini Protiv Hrvatska, preto e branco sem capa dura. Pó. Otkuda Dolazi Slo?Jesam maski. Uma língua que eu não falava há tempos. E não ouvia. Já te volim foi a primeira frase que aprendi. Amigos. Só amigos. Em vários idiomas. É clichê, eu sei, mas o amor tem mesmo uma língua própria. Três palavras: Nada, Bunda e Curva. To Sam ja. Ja jesam sto ti govoris. Ja nesnam toj tata, eu não sou seu pai. Ljuda? O que era Ljuda mesmo? E Ljog? Ljubca eu lembro bem. Ja ocu dopisivace. Ja ne govorim dobro, alje ja ocu doposivace. A caixa preta pequena, preta mesmo, continuou imaculada. A vermelha veio. A azul e a amarela vão esperar. Não quero que elas cheguem nessa bagunça. Nunca mais o fogo. Nunca mais aqueles mistérios. Quero água. Chá não? Não lembro como se diz isso na sua língua. A minha língua? A nossa língua. A nossa língua é português. Ja te volim. Jesam no put do moja kuca. Lembra? Prefiro esquecer, mas não consigo. E a papoula? Não é da papoula que vem o ópio? Você casaria com um bouquet de papoulas? Por isso que eu me viciei, por causa da papoula. Ja ocu mak. Ja ne volim pas te. Volis mak? Da. Voda, ja ocu popit voda.
Mexer no passado dói muito. Dói como desencravar a unha. Você enfia algo afiado no fundo da carne e puxa até que o intruso saia e espera sangrar tudo o que tem pra sangrar. E deixa. Deixa sangrar.
Há varias maneiras de resolver histórias.Uma delas é desencravá-las, torná-las públicas ainda que ficcionadas. Desde algum tempo não acredito mais em ficção, só em realidade. Ficção é uma maneira que encontraram de falar as verdades nebulosas.
As histórias que te fazem rir na tela da tevê são a verdade de alguém.
Na verdade, bem na verdade, a vontade que dá é de largar tudo e sair por aí. Olhar nos olhos dela, segurar bem forte sua mão e levá-la comigo. Pra isso preciso de um patrocinador. Descobri que para ser feliz só é preciso ter um patrocinador, alguém que tope ser infeliz para financiar a felicidade dos outros. Ou não, alguém que seja tão feliz, mas tão feliz que ajude permita que alguém seja também, assim, só por ser. Patrocinem minhas insanidades, patrocinem minhas loucuras, financiem a minha felicidade! Venham todos! Destinem seus impostos à minha masturbação intelectual. Me vendo por pouco!
Das coisas que fiz neste ano que vai acabando, a que mais me deu prazer foi escrever duas cenas para teatro. Escrevi uma cena ‘Conversa Corriqueira’ – texto que hoje me arrependo de não ter montado para as satyrianas - e ‘Morrer de Amo’, que o Marculino (Marcus Nascimento) dirigiu uma montagem nas Satyrianas. Nessa loucura embarcou o Amigo Paulinho (Paulo Vereda – ator e dramaturgo), a Débora, a Mafalda e o Fabiano. Cada uma dessas pessoas é extremamente importante. O Paulo é aquele amigo que faz parte da vida integralmente, desde que nos conhecemos acho que nunca passamos um dia sem nos falarmos. A Débora fez faculdade comigo, mas nossa aproximação mesmo aconteceu depois, o que me deixa mais certo de que essa amizade é das boas. Nos entendemos muito bem, só com uma troca de olhar. É tão difícil achar cumplicidade hoje em dia. O Fabiano conheci na oficina de teatro e dividi cena e personagem com ele na nossa montagem de 18 Segundos –texto que o Paulinho ajudou a escrever- e foi incrível ter um ator como ele do lado. Concentrado, firme e incansável. Ensaiamos por horas e horas, mas o resultado foi muito feliz, nós ficamos felizes e o público, aparentemente, também. A Mafalda veio pela Débora. Chegou de mansinho, já tínhamos conversado rapidamente antes, mas nos conectamos instantaneamente. Ela já está junto num outro projeto e vai ficar, nos trabalhos e na vida. O Marculino é meu sócio na vida, e depois de alguns exageros, eu entendi que sociedade tem alguns limites, ainda é Mi Casa Su Casa, mas sus mujeres serán solo suyas. Te lo juro.
Nessa de escrever teatro me empolguei e estou escrevendo algo maior. Está muito cru e estou pesquisando alguns elementos para criar a atmosfera do texto. Alguns elementos que eu gostaria que fossem aproveitados na montagem, mas confesso que não estou tão preocupado com isso, quero primeiro escrever um texto de qualidade. Já tenho em mente algumas coisas e algumas pessoas que quero que dêem vida a esse filho, mas ainda é muito cedo para qualquer especulação.
A pesquisa que estou fazendo parte da música porque essa história nasceu de uma música que eu gosto muito. Nasceu e tomou outro rumo, o processo de criação é maluco, começa de um jeito e vai ganhando vida, de fato. O autor realmente não tem controle total do texto e do rumo das personagens. Mistéério. Memórias de histórias que eu ouvi, li e assisti na TV e no Cinema são pontos fundamentais da minha pesquisa. Sobretudo as histórias que eu ouvi de pessoas que eu amo muito. O texto tem um pedaço muito importante de mim, como não poderia deixar de ser, e acredito que de alguma forma ele vai resolver uma história. A parte musical da pesquisa também remete a histórias que eu ouvi, a situações vividas. Okay, quando vocês lerem o texto e souberem do que ele se trata vão me achar maluco, mas tem muito de mim nele, e muito, muito dessa história. Voltando a música, tenho pesquisado um tipo específico de instrumentos e nos tortuosos caminhos da internet encontrei uma musica que tem me inspirado muito e é minha companheira de criação, já que criar é um ato solitário. Deixo com vocês essa incrível gravação de Min Beriya (Sinto sua falta).
If life is a river and your heart is a boat And just like a water baby, baby born to float And if life is a wild wind that blows way on high Then your heart is Amelia dying to fly Heaven knows no frontiers And I've seen heaven in your eyes
And if life is a bar room in which we must wait 'Round the man with his fingers on the ivory gates Where we sing until dawn of our fears and our fates And we stack all the deadmen in self addressed crates In your eyes faint as the singing of a lark That somehow this black night Feels warmer for the spark Warmer for the spark To hold us 'til the day When fear will lose its grip And heaven has its way Heaven knows no frontiers And I've seen heaven in your eyes
If your life is a rough bed of brambles and nails And your spirit's a slave to man's whips and man's jails Where you thirst and you hunger for justice and right Then your heart is a pure flame of man's constant night In your eyes faint as the singing of a lark That somehow this black night Feels warmer for the spark Warmer for the spark To hold us 'til the day when fear will lose its grip And heaven has its way And heaven has its way When all will harmonise And know what's in our hearts The dream will realise
Heaven knows no frontiers And I've seen heaven in your eyes Heaven knows no frontiers And I've seen heaven in your eyes
Se a vida for um rio e seu coração for um rio E, assim como a água, nascido para flutuar E se a vida for um vento forte que sofre pela frente Então, seu coração será Amélia louca para voar O céu não conhece fronteiras E eu vi o céu nos seus olhos
E se a vida for um hall onde devemos esperar Em torno do homem com os dedos na cerca de marfim Onde nós cantamos até terminarem nossos medos e dores E nós espetamos todos os homens mortos em covas marcadas Em seus olhos terminam como o canto de um pássaro Que, de algum jeito, essa negra noite Parece quente para a chama Para que nos mantenha até o dia Em que o medo perca seu sentido E o céu tem seus jeitos O céu não conhece fronteiras E eu vi o céu nos seus olhos
E se a vida for uma cama dura de frutos com espinhos E seu espírito for um escravo dos desejos e das prisões humanas Onde você sente sede e fome de justiça Então, seu coração será uma pura chama da constante noite humana Em seus olhos terminam como o canto de um pássaro Que, de algum jeito, essa negra noite Parece quente para a chama Quente para a chama Para que nos mantenha até o dia Em que o medo perca seu sentido E o céu tem seus jeitos E o céu tem seus jeitos Quando tudo se harmonizará E saberão ler seu coração O sonho se realizará
O céu não conhece fronteiras E eu vi o céu nos seus olhos O céu não conhece fronteiras E eu vi o céu nos seus olhos
O Homem está caminhando e vira em direção a uma banca de flores onde a Mulher está trabalhando, vendendo suas flores. O Homem sente uma agulhada no peito, uma dor, seguida de uma quentura. Ele perde o equilíbrio e cai, a Mulher vem em sua direção para ajudá-lo.
HOMEM - Você é a mulher da minha vida. MULHER – Você está bem? O que aconteceu? HOMEM - Me escute, você é a mulher da minha vida. MULHER – Você está louco? O que você está dizendo? HOMEM – Eu sempre soube que seria assim, mas duvidei. Ele sempre me contava que quando viu mamãe pela primeira vez sentiu uma dor no peito, como se uma flecha atravessasse seu coração e ele perdeu o equilíbrio. MULHER – O amor dói mesmo. HOMEM – Assim que eu te vi, senti esse calor como se uma flecha em chamas atravessasse meu peito. Eu te amo. MULHER – O amor dói e sangra. (tempo) Você está sangrando! Socorro! Você está sangrando! HOMEM – Eu estou sangrando. Não é justo morrer agora que eu te encontrei, não é justo. MULHER – O amor não é justo, é desumano. HOMEM – Eu te amo.
O Homem desfalece e morre. A Mulher chora.
75 pessoas foram vítimas de bala perdida no primeiro trimestre de 2008